Combate ao vírus ou à ciência?

Enquanto Covid-19 corre solto por aí, não canso de me desapontar com autoridades que ousam desafiar o método científico. Vírus não quer saber de narrativas oficiais, não é vulnerável a bullying, não pode ser comprado nem bloqueado com manobras judiciais. O vírus é a realidade: mesmo pra quem se recusa a acreditar, ela continua lá.

Quem ousou desafiar a ciência, botar panos quentes, fazer de conta que não era grave, cedo ou tarde capotou ou capotará na curva do crescimento exponencial.

Quem se achou gênio de vislumbrar um jeito de conter o vírus sem medidas drásticas de isolamento social, tentando evitar prejuízos à economia, não precisa de mais que algumas semanas para descobrir que não só não tem outro jeito, como que as medidas mais tímidas acabam aumentando o prejuízo.

Cabeça fria e ciência fazem a gente ver que o prejuízo à economia é inevitável: a circunstância mudou, é preciso refazer planos. Paciência, pra não virar paciente. Meu pesadelo é que algum louco interrompa a quarentena cedo demais, novamente desafiando a ciência com propósito de reduzir as perdas econômicas, e acabe dando início a novos focos de crescimento exponencial e dispersão do vírus, exigindo novos ciclos de confinamento, perda de vidas e prejuízos financeiros.

Ah, mas a imprensa oficial, incluindo o @Zap (leia-se atizápi), está dizendo que já há remédio! Vem aí novo banho gelado de ciência. Os relatos de recuperação com uso de cloroquina envolveram uma semana de UTI com respirador. Se deixar o vírus se espalhar à vontade, o número de casos dobra a cada poucos dias. Os últimos 100mi de casos serão confirmados ao longo desses poucos dias e 5mi deles precisariam de UTI ao mesmo tempo, disputando com os 2.5mi dos poucos dias anteriores e alguns dos 1.25mi remanescentes da semana anterior! Com tamanha demanda por UTIs, de que adianta ter o remédio se não conseguir continuar respirando até ele fazer efeito?

Outra: o estudo inicial da cloroquina para tratar Covid-19 foi muito pequeno demais, nem grupo de controle tinha. Há pessoas que, dadas as condições para continuar respirando, se recuperam da infecção pelo próprio sistema imunológico. Estudos científicos sérios mantêm grupos de controle recebendo placebo ou algum outro tratamento já comprovado. Com o embarque na tese da cloroquina, empurrada por especuladores antes de qualquer comprovação científica, corremos o risco de cair no conto de vigaristas e pagar caro para oferecer a vítimas da doença nada mais que um placebo altamente tóxico.

Enquanto isso, a ideologização dos tratamentos, descabida no meio científico, parece tomar força: enquanto a cloroquina encontra amplo espaço de divulgação nos meios de comunicação de massa, o Interferon Alfa 2B, usado com sucesso na China no tratamento de casos de Covid-19, inclusive nos pacientes supostamente curados pela cloroquina, mesmo já sendo distribuído a dezenas de outros países, sequer aparece no radar da imprensa de massas brasileira.

Na ausência de evidências científicas que apontem mérito a uma ou a outra droga, ouso suspeitar que a preferência midiótica se trate de comportamento típico do Homo @zappiens incogitandus, que alia apoio de interesses econômicos a preconceito ideológico para assegurar a conquista do Prêmio Darwin. Afinal, enquanto a cloroquina vem sendo promovida por especuladores internacionais, a origem do Interferon Alfa 2B é cubana.

Até blogo...


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